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22 outubro 2012

Breves considerações sobre o QE3





Com a introdução de outro programa para a compra de MBS (forma de securitização), da ordem de US$ 40 bilhões por mês, o FOMC está apoiando a política federal de longa data de ajuda aos setores de construção civil e de hipotecas. Foram exatamente tais políticas que foram as maiores responsáveis pela crise financeira, que começou no setor imobiliário. Por que o FED quer incentivar ainda mais essas políticas federais desastrosas? Diz-se que o FED é apolítico, mas esta decisão está diretamente apoiando a continuação da atuação da Fannie Mae e da Freddie Mac. Esta ação não é política monetária, mas política fiscal, concessão de crédito a uma indústria favorecida. Esta política é o capitalismo de compadrio, sendo praticada pelo governo federal e pelo FED.

As decisão do FOMC cria mais um problema para o FED. Se o crescimento do emprego vingar, ou se a inflação aumentar considervalmente antes de uma reunião do FOMC, o mercado vai se perguntar se o FED irá parar as compras de MBS. O FED se recusou a oferecer qualquer orientação genuína a respeito de quando a política vai acabar. Por outro lado, se o crescimento do emprego continuar fraco, os participantes do mercado vão se perguntar antes de cada reunião do FOMC se o Fed vai fazer mais, ou introduzir alguma nova política e inexperiente. Em suma, só aumentam as incertezas.

Na sua conferência de imprensa de lançamento do QE3, o presidente do FED, Ben Bernanke apropriadamente enfatizou a necessidade de políticas fiscais para estabilizar as finanças federais. No entanto, ele mesmo está prometendo que o FED pode contribuir para derrubar o desemprego. Essa promessa reduz a pressão de ação sobre o Congresso. Então pergunta-se: Por que o Congresso irá lidar com as difíceis questões políticas atuais se o FED se compromete a fazer o trabalho?

Ao que parece, a situação que o FED está criando é absolutamente insustentável e trará consequências ainda mais dolorosas do que as já criadas.


 


20 maio 2012

Todos ganham com o câmbio desvalorizado?


Comumente, ouvimos que a taxa de câmbio é um importante instrumento para se promover o crescimento econômico de um país. 

O ministro da Fazendo, Guido Mantega[1], recentemente afirmou que “o dólar alto beneficia a economia brasileira porque dá mais competitividade aos produtores. Significa que a indústria brasileira pode competir melhor com os importados, que ficam mais caros, e pode exportar mais barato para o exterior. Portanto, não preocupa”.

Rogoff e Reinhart (2004)[2] mostram que o Brasil perde apenas do Congo entre os países com as moedas que mais se desvalorizaram no mundo entre 1970 e 1991. Nesse sentido, há algumas questões pertinentes:

1. Isso tornou o Congo ou o Brasil nações industriais e competitivas?
2. Além disso, como se justifica a perda de participação relativa da indústria no PIB nesse mesmo período?
3. Como nações ricas e de câmbio apreciado, como a Alemanha e os Estados Unidos, conseguem ter participações elevadas entre os países exportadores do mundo?

No jogo da desvalorização (ou depreciação, se assim quiserem), nem todos ganham. Viajar para o exterior é um sonho para muitos, e que contribui de várias formas que não podem ser mensuradas monetariamente para a pessoa e o país ao qual habita.

Nesse artigo irei tratar do setor do turismo internacional no Brasil, e mostrar como um câmbio desvalorizado prejudica aqueles que querem e/ou necessitam viajar para outros países.


Taxa de câmbio - R$ / US$ - comercial

A Taxa de câmbio é a taxa utilizada nas transações oficiais (exportações, importações e transações financeiras) registradas no Banco Central do Brasil.

A taxa de câmbio diz quanto está valendo o real, frente ao dólar. Uma taxa de câmbio mais baixa (valorizada), diz que a moeda brasileira está se fortalecendo frente ao dólar. Ou seja, com um mesmo montante de reais (digamos, R$1000), compram-se mais mercadorias registradas em dólar.

E como isso afeta o setor de turismo no Brasil?

Uma taxa de câmbio valorizada significa que a moeda brasileira está se fortalecendo, ou seja, viajar para o exterior está ficando cada vez mais barato!

Vejamos o comportamento da taxa de câmbio no Brasil durante o período de 1980 a 2011:

 Fonte: IPEADATA.
Figura 1 - Taxa de câmbio (comercial / venda) no Brasil durante o período de 1980 a 2011.
              
Ressalta-se que desde 2003 o real tem se valorizado persistentemente frente ao dólar. Ou seja: viajar para o exterior está ficando cada vez mais acessível!

            Vamos conferir os gastos trimestrais dos brasileiros no exterior nos últimos anos, desde 1980 até 2011:

 Fonte: IPEADATA.
Figura 2 – Gastos trimestrais dos brasileiros no exterior (milhões de US$) no período de 1980 até 2011.

 Percebe-se que a partir do momento em que houve um ciclo contínuo de queda na taxa de câmbio, a partir de 2003, coincidiu com o ciclo contínuo de alta nos gastos internacionais por parte dos brasileiros. Ou seja, real valorizado anda lado a lado com os gastos em internacionais dos brasileiros.
            Através de análise econométrica, foi constatado que, para o período de 1995 a 2011, a elasticidade renda do setor de viagens internancionais no Brasil é de -2,02, ou seja, para cada 1% de queda na taxa de câmbio (real valorizando), ocorre um aumento de 2% nos gastos dos brasileiros com viagens internacionais. 
 
No caso brasileiro, concretamente a disparidade das taxas de juros prevalecentes entre o mercado interno e o mercado externo exerce influência sobre a taxa de câmbio. Especificamente, após criação de uma série que considera a diferença entre a taxa de juros SELIC e a taxa de juros referencial internacional (FED funds Rate), e posterior contraste com a taxa de câmbio média do mês para compra, tem-se a figura 3.

 * Para todas as variáveis, base janeiro de 2000=1
Fonte: IPEADATA.
Figura 3 – Diferenças mensais entre taxas de juros SELIC e a taxa de juros FED funds Rate e a taxa de câmbio média mensal para compra.

 Há uma clara relação positiva entre as variáveis, ou seja, a discrepância entre taxas de juros exercem influência altista na formação da taxa de câmbio no Brasil.

Quanto às projeções, para o dólar voltar a se fortalecer consideravelmente frente ao real (acima de R$2,00), é necessário que a diferença entre as taxas de juros no Brasil e no mercado internacional continue caindo. Ou também, uma grande crise econômica ou alguma medida catastrófica do governo, o que é improvável em um cenário de curto e médio prazo. 

Com o real valorizado, o setor de turismo internacional é um mercado em expansão contínua no Brasil!

Naturalmente, com o real desvalorizado, o setor de turismo internacional é um mercado em retração no Brasil!

OBS: Esses levantamentos são fruto de uma pesquisa que realizei para uma agência de turismo. Naturalmente, quando falo que o setor de turismo internacional é um mercado em expansão no Brasil, eu estou me referindo ao mercado que a agência explora - venda de roteiros internacionais.



[1] http://veja.abril.com.br/noticia/economia/guido-mantega-comemora-dolar-em-alta
[2] Reinhart, Carmen e Keneth Rogoff (2004a), “The modern history of exchange rate arrangements: a reinterpretation”, Quarterly Journal of Economics, 119(1), fevereiro: 1-48.

26 abril 2012

Qual o impacto do BNDES sobre as taxas de juros no Brasil?


O BNDES (banco nacional de desenvolvimento econômico e social) tem ganhado notoriedade crescente nos últimos anos. O Banco é uma empresa pública federal, sendo atualmente o principal instrumento de financiamento de longo prazo em todos os segmentos da economia.

Fundado em 1952, por Roberto Campos (o nome original era BNDE), o BNDES se destaca no apoio à agricultura, indústria, infraestrutura e comércio e serviços, oferecendo condições “especiais” para micro, pequenas, médias e grandes empresas.

A operação do BNDES tem sido elogiada constantemente por políticos, partidos, governo, imprensa e economistas. Notadamente, as taxas de juros são altas no Brasil. Nesse sentido, a operação do BNDES, que fornece crédito subsidiado, possibilita o financiamento de empreendimento com taxas de juros mais acessíveis, que viabiliza muitos negócios.

Contudo, nem só efeitos positivos advêm com a operação do Banco público.  Um efeito contraverso que emana de sua atividade é a pressão altista que exerce nas elevadas taxas de juros no Brasil.

Exatamente. Como ensina a teoria econômica, a segmentação de mercado sempre gera efeitos negativos. No caso brasileiro, a segmentação do mercado de crédito, que ocorre com a operação de bancos que fornecem crédito subsidiado, como é o caso do BNDES, impacta positivamente nas taxas de juros de mercado.

Especificamente, o financiamento subsidiado – fornecido a taxas de juros abaixo do que prevalece no mercado – pelo BNDES à economia, deve estar pressionando a taxa real de juros de equilíbrio no mercado de crédito. 

A intuição é que o setor público oferecendo crédito subsidiado a economia, a política monetária controlada pelo Banco Central terá de elevar ainda mais as taxas de juros visando manter a demanda por crédito em um nível consistente com a meta inflacionária. 

É aquele cabo de guerra que funciona na economia: os setores ou empresas que recebem o crédito são beneficiados, ao passo que os outros, que não tem a mordomia do crédito subsidiado, irão pagar o preço, visto que a oferta de crédito a estes chega a um custo mais elevado do que teria caso não houvesse o crédito subsidiado.

Em outras palavras, considerando a existência de crédito subsidiado, o Banco Central controla apenas uma parte do mercado de crédito existente na economia. 

Logo, a taxa real de juros de equilíbrio consistente com pleno emprego e estabilidade de preços será uma função das taxas de juros subsidiadas e das taxas de juros não subsidiadas (de mercado).

Com efeito, as taxas de juros subsidiadas exercem uma pressão extra sobre o mercado, fazendo com que as taxas de juros não subsidiadas sejam mais elevadas do que seriam caso não houvesse a operação do crédito subsidiado.

Não pretendo criticar a operação do BNDES. Estou apenas ressaltando um custo que existe em face da operação do banco, e que foge as vistas de muitos. Ao que parece, o BNDES é algo sacrossanto, e que apenas coisas boas emanam de sua operação. 

Enquanto economistas competem a nós apontar tanto os efeitos positivos como os negativos que surgem das políticas econômicas (BNDES é fruto de política econômica, não do livre mercado). Como muitos apontam o lado positivo, optei por fazer o trabalho sujo.

17 abril 2012

A culpa da crise imobiliária norte americana reside no mercado?


Esse artigo foi por mim escrito em 2009. Está portanto desatualizado. Contudo, não inviabiliza o entendimento de um fato: o sistema imobiliário norte americano não é regido pelo mercado, pelo contrário, uma análise do mesmo demonstra o quão intervencionista ele é. Boa leitura!


O empenho da imprensa foi significativo para criar um dos maiores mitos da história econômica: o de que a atual crise financeira é resultado direto da liberdade econômica e do capitalismo laissez faire. Colaborando com isso, todos os políticos bradavam contra o perigoso neoliberalismo. Só há uma solução para a crise, a saber, mais e mais regulamentações e muita intervenção estatal.

A força anti-mercado seduziu inclusive aqueles que se utilizaram da plataforma liberal em suas campanhas políticas. Sarkozy disse que a economia 'laissez faire', a 'auto-regulação', e a visão de que o 'todo-poderoso mercado' sempre sabe o que é melhor acabaram".

O livre mercado tornou-se assim, o inimigo comum a ser combatido. Como se não bastasse, notáveis economistas deram sua contribuição em favor do obscurantismo, inclusive economistas laureados com o prestigioso prêmio Nobel. Foi o caso de Joseph Stiglitz, cujo texto demonstra seu rancor ao mercado, e seu conseqüente desconhecimento para com os fatos: “O mundo não tem sido bom para o neoliberalismo, este apanhado de idéias baseado na noção fundamentalista de que os mercados são autocorrigíveis, alocam recursos de forma eficiente e atendem bem ao interesse público”.

Seu ataque não somente mostra o desprezo por um fantasma chamado neoliberalismo, mas também que existem formas mais eficientes de se alocar recursos do que por trocas voluntárias. Disso surgem algumas perguntas: se não é o mercado que aloca eficientemente os recursos, será a imposição de alguém que o fará? Será o Estado? Ou um funcionário da Gosplan? Da mesma forma, restam dúvidas na frase, pois não se sabe ao certo o que leva um Cubano a fugir de seu país tentando a vida na América, pois esse território ‘neoliberal’, conforme Stiglitz disse, é incapaz de atender ao interesse público. Esses Cubanos são, portanto, meros malfazejos, fugindo em busca de deleites duvidosos.

Liberalismo clássico do ponto de vista econômico pode ser entendido como o capitalismo alicerçado em uma economia sem impostos progressivos, sem um banco central, sem um sistema plenamente fiduciário e inconversível, sem ações governamentais que estipulam preços ou salários, sem medidas governamentais que obriguem a garantir o emprego de algum determinado grupo étnico, sem um sistema de saúde gerido pelo governo, sem ministérios como o de energia e do trabalho, sem agências que regulem o mercado financeiro, ausência de tarifas aduaneiras e assistencialismo, ausência de incentivos a setores, como agrícola ou imobiliário; enfim, uma economia realmente livre e ausente de interferência governamental. Como vemos, o sistema econômico que vivemos atualmente está totalmente distante do que seria em um sistema liberal.

Ainda que o frenesi estatizante tenha triunfado, restaram algumas vozes dispersas em defesa da liberdade econômica. Nesse sentido, faz-se necessário uma análise aprofundada da crise, para se entender as raízes dela, e eliminar esse falso entendimento dos fatos. A análise superficial, feita pela grande imprensa e tornada sacro-santa pelos homens de poder, induz ao triunfo dessa ‘cruzada anti-mercado’.

A recente crise tem suas origens no setor imobiliário dos Estados Unidos. Como essa é uma ‘’crise do neoliberalismo’’, é de se imaginar que este fosse um setor livre de intervenção. Porém, basta realizar uma breve análise para se comprovar exatamente o oposto. Não só altamente regulado, mas, sobretudo, altamente controlado e estimulado pelo Estado.

Vamos aos fatos. Algumas agências governamentais podem emitir títulos para financiar suas atividades, uma clara comprovação do intervencionismo que vivemos. Estas agências são normalmente formadas por razões de política pública para canalizar crédito a um setor específico da economia, que o Congresso acredita não estar sendo adequadamente financiado por meio de fontes privadas.

No setor imobiliário, as principais agências com relação à hipoteca são o Federal Home Loan Bank (FHLB), a Federal National Mortgage Association (Fannie Mae), a Government Nationalk Mortgage Association (Ginnie Mae), e a Federal Home Loan Mortgage Corporation (Freddie Mac). Estas três últimas foram organizadas para oferecer liquidez ao mercado hipotecário.

A intervenção do Estado na economia traz conseqüências. Como se não bastasse o direcionamento artificial de recursos para determinados setores, sua atuação induz também o chamado moral hazard. Embora a dívida de agências federais não fossem explicitamente asseguradas pelo governo central, presumia-se que ele ajudaria uma agência beirando a insolvência, o que de fato fez. Portanto, estes títulos foram considerados extremamente seguros e sua margem de rendimento sobre os títulos do Tesouro Norte Americano foi normalmente pequeno. É conhecido o fato que as agências de rating rotulavam de extremamente seguros tais ativos, tendo nota máxima, ou seja, AAA+++.

Os títulos garantidos por hipoteca são direitos de propriedade em um grupo de hipotecas ou obrigações que são asseguradas por um grupo desse tipo. Esses direitos representam, portanto, a securitização dos empréstimos. Assim, credores hipotecários criam empréstimos e depois vendem pacotes desses empréstimos no mercado secundário. Especificamente, vendem o seu direito aos fluxos de caixa das hipotecas enquanto estes empréstimos estão sendo pagos. Quem criou a hipoteca continua a servir o empréstimo, cobrando os pagamentos de principal e de juros, e passa esses pagamentos para o comprador da hipoteca. Por isso, esses títulos garantidos por hipoteca são chamados de lastro em hipotecas.

O fato é que, exatamente esses títulos, que posteriormente se mostraram podres, foram criados pelas agências do governo, induzidos pelo Congresso, ao crer que o setor estava carente de recursos. Era o Estado sabendo o que era o melhor para a economia. Explico-me.

Os títulos com lastro em hipoteca foram criados pela Ginnie Mae, no ano de 1970. Os com lastro em hipotecas Ginnie Mae tinham a garantia do governo Norte-Americano que assegurava o pagamento pontual do principal e dos juros, mesmo se o devedor deixasse de pagar a hipoteca. Exatamente como aconteceu. Outros títulos deste tipo foram criados desde então. Criados e popularizados, alicerçados no moral hazard que o governo cria. Estes títulos foram patrocinados pelas agências governamentais Fannie Mae e Freddie Mac. Até o final do ano de 1995, mais de 1.8 trilhões de dólares em hipotecas em circulação estavam em circulação securitizadas por títulos garantidos em hipotecas. Este número, com o decorrer do tempo, só aumentou.

No princípio da década de 1970, a inflação e as taxas de juro subiram drasticamente. Muitos investidores afastaram-se das hipotecas tradicionais. A Ginnie Mae, como mencionado, emitiu em 1970 a sua primeira garantia com título apoiado por hipoteca. Os investidores consideraram estes títulos altamente atrativos. Também em 1970, sob o Emergency Home Finance Act, o Congresso permitiu à Federal Home Loan Mortgage Corp (Freddie Mac) que comprasse hipotecas convencionais de instituições financeiras seguradas a nível federal. A legislação também autorizou a Fannie Mae a comprar hipotecas convencionais. Por sua vez, o Freddie Mac introduziu o seu próprio programa títulos hipotecários em 1971. Era o governo controlando os recursos, estimulando os setores que lhe interessava, e fazendo o papel do mercado.

A Fannie e o Freddie foram, portanto, os inventores originais dos títulos apoiados por hipoteca, uma causa chave da bolha habitacional e da sua deflação subsequente. Estes títulos receberam crédito e reconhecimento por sua engenhosidade em fragmentar o risco e em revender títulos apoiados por hipotecas a compradores com variados apetites para o risco no mercado global. Este foi o segredo por trás do boom habitacional nos EUA e a ideia que permitiu o mercado das finanças estruturadas. Alan Greenspan, antigo presidente do Federal Reserve, louvou-o incessantemente como um feito engenhoso que muito fez para ampliar as habitações na América.

O êxito desses títulos permitiu a titularização de hipotecas subprime e "ninja" (no income, no job or assets), empréstimos que ninguém compraria se não fossem garantidos pelo governo. Portanto a falha não jaz nos originadores das hipotecas, pois eles não seriam capazes de emitir hipotecas duvidosas a menos que houvesse um mercado para elas. O abuso dos derivativos e de sua alegada garantia governamental tornou a disciplina do mercado inoperante, permitindo ao sistema ser conduzido com sinais distorcidos, fora da realidade econômica. Devido à sua complexidade e distribuição ampla, quando dívidas tituladas deixam de ser cumpridas, a reestruturação é quase impossível. Não há extintor de incêndio efetivo uma vez que o fogo começa e rapidamente toma todo o mercado, como de fato aconteceu na recente crise, apontada como sendo a crise do ‘livre-mercado’.

O sistema habitacional do modo como foi criado pelo governo, pode ser visto como um socialismo corporativo de mercado em nome da democracia econômica populista.

Como não bastasse tamanha intervenção do Estado no setor imobiliário, em 1977 foi criado pelo governo federal o CRA (Community Reinvestment Act - Decreto de Reinvestimento Comunitário). Com este decreto, o FED (o Banco Central americano) e outros reguladores do sistema financeiro ficaram autorizados a pressionar os bancos para conceder empréstimos a mutuários com capacidade creditícia duvidosa - mutuários esses que, em um livre mercado não receberiam o crédito.

O governo também "aperfeiçoou" os requerimentos regulatórios para os empréstimos CRA no ano de 1995, induzindo aos bancos fazerem tais empréstimos sem que pudessem verificar muitos critérios tradicionais de histórico de crédito, tais como a magnitude do pagamento hipotecário em relação à renda do mutuário, histórico de poupança e até mesmo verificação de renda. E na realidade, o FED disse aos bancos que a participação do mutuário em programas de aconselhamento de crédito, muitos dos quais eram financiados com fundos federais, poderia ser usada como garantia da capacidade desse mutuário de baixa renda honrar seus pagamentos hipotecários. Em outras palavras, os reguladores bancários federais exigiram que os bancos fizessem empréstimos ruins baseando-se em padrões de crédito não existentes.

Dito tudo isso, é possível crer que foi genuinamente o livre mercado ‘’desregulamentado’’ que provocou a crise imobiliária?

Ainda que os fatos acima demonstrem a realidade da ausência um livre mercado, restam-nos alguns pontos a considerar. Muito possivelmente, o fator mais destrutivo nesse processo até o momento não foi mencionado: o controle da taxa de juros pelo banco central, e seu poder de criação e destruição de riqueza. Este é, certamente, o fator chave dessa crise. Até o preço básico da economia não foge do poder regulatório do governo. A bolha imobiliária pode ser mencionada em quatro etapas.

Na primeira, o FED cortou a taxa básica de juros para seu mínimo histórico, 1%, no ano de 2003. Era o governo adotando medidas ‘contra-cíclicas’. A taxa de juros real, pela primeira vez na história, tornou-se negativa. Certamente era um estímulo a economia - estímulo rumo ao precipício.

Então, naturalmente, as taxas hipotecárias tornaram-se as menores da história, à medida que a escassez ‘diminuía’ na economia, seguindo a trajetória dos juros controlados pelo Banco Central.

Consequentemente, os empréstimos explodiram, sobretudo no setor imobiliário. Era a magia do FED, resolvendo o problema central da economia - a escassez estava próxima de ser superada.

Dado os incentivos governamentais, os preços das casas dispararam. Os títulos até então eram garantias de lucros, sobretudo numa economia onde o banco central tinha abolido o juro real. Entretanto, a realidade sempre prevalece, e o FED não pode manter por muito tempo o juro negativo. A verdade prevaleceu, e a ressaca teve que acontecer.

Agências governamentais, títulos lastreados em hipotecas e derivativos de crédito foram assim, unicamente o condutor que fizeram com que todos esses investimentos e empréstimos ruins parecessem menos arriscados do que realmente eram. Dessa maneira, o Federal Reserve pode enganar o mercado, pelo menos temporariamente. Mas, no final, o mercado sempre acaba se reafirmando. E se reafirmou.

Conclusão:

Não vivemos atualmente e nem vivemos anteriormente à crise em um livre mercado. Não foi a livre iniciativa que nos trouxe a tal situação, mas sim o intervencionismo em larga escala, e a pretensão de burocratas e congressistas em gerir a economia, sobretudo com o direcionamento de recursos e a substituição do capital por dinheiro monopolizado do FED, suprimindo o juro, juro este inimigo mortal do capitalismo estatal e populista.

Portanto, raciocine antes de falar que a crise que vivemos é fruto do capitalismo de mercado. Capitalismo de mercado é um sistema econômico, o intervencionismo que vivenciamos é outro sistema - a nossa realidade.


Referências:

http://mises.org.br/Article.aspx?id=124

http://mises.org.br/Article.aspx?id=168

http://mises.org.br/Article.aspx?id=188

http://www.acionista.com.br/dep_tecnico/151008_a_crise_do_subprime.htm

http://simplesnotas.wordpress.com/ - MBS legal!

http://ferrao.org/2008/07/joseph-stiglitz-o-fim-do-neoliberalismo.html

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/3511_A+MULHER+QUE+ABALOU+O+FMI

http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2008/11/as-agncias-de-risco.html

http://resistir.info/crise/liu_22jul08_parte_1.html - ok

http://resistir.info/crise/liu_22jul08_parte_2.html

http://fmauriciograbois.org.br/portal/revista.int.php?id_sessao=50&id_publicacao=201&id_indice=1730